
A necessidade da Ternura e do Vigor de Francisco*
A força poética ou latente penetração da figura de Francisco de Assis na cultura religiosa brasileira, especialmente no nordeste, já seriam bons propulsores de criação e justificariam, em sua riqueza estética a construção de um espetáculo que abarcasse a poesia de sua figura. Não obstante, há na história do Pobre de Assis elementos filosóficos, práticos e sociológicos que merecem maior atenção.
Em tempos de intensa crise das instituições, colapso dos sistemas econômicos vigentes, vivos sintomas das consequências da ruptura da humanidade com o natural, refletir e manifestar em poesia cênica o legado de Francisco de Assis se torna urgente. Se nos ativermos ao fenômeno da composição de seu célebre poema “Cântico do Irmão Sol” ou “Cântico das Criaturas” divisor de águas na literatura das línguas latinas por ser o primeiro cântico composto não em latim, mas no dialeto vulgar úmbrio - falado pelas diferentes camadas sociais na região de Assis no século XIII -, perceberemos que, nesse pioneirismo, há a flagrante escolha pela condição de igualdade inata do ser humano a despeito de castas ou divisões sociais históricas. A estrutura de cântico litúrgico do cristianismo preservada, não impediu que, em sua composição houvessem evocações dos elementos naturais tais como nos cantos e orações xamânicos ancestrais, ou o caráter do êxtase místico dos sufistas do Islamismo. Em sua simplicidade e poesia, no momento em que o entoamos, há como que a afirmação e reinvenção da qualidade divinal em cada um dos elementos da natureza sobrepondo-os à institucionalização da racionalidade humana e seus dogmatismos.
Se seguirmos pela ótica de Walter Benjamin entendendo que a valorização excessiva da racionalidade humana é um aspecto motriz do desenvolvimento secular das forças produtivas e, consequentemente do avanço da indústria, a oportunidade de olhar para os elementos da natureza livre do pragmatismo e do tecnicismo da nossa sociedade, permite que rememoremos ações artesãs, como fazer pão, acender o fogo, tocar um instrumento, moldar o barro e bordar.
Essas técnicas primordiais de ação humana sobre os elementos da natureza possibilitam trazer à tona a força dos narradores e narradoras que, talhando a madeira e moldando o barro, contavam as experiências épicas de seu povo. Com isso, a força que há na busca de uma poesia “francisca”, é a mesma força da perspectiva comunitária que nos conduz para espaços das nossas memórias de artesanía, onde se contava uma história, e essa história tinha importância para os iguais que a ouviam.
Jacques Le Goff – historiador especializado na Idade Média – situa temporalmente Francisco no que ele chama de “fase germe do capitalismo”, período no qual o valor da moeda se sobrepõe ao valor das trocas de mercadoria tornando, assim, virtual a relação do cidadão medieval com a materialidade que o cercava. Ao se reconhecer como “irmão” de cada elemento (incluindo os elementos naturais, pessoas que sofrem e que amam e a própria condição da mortalidade) evocado em seu cântico, Francisco manifesta uma espiritualidade que compreende a materialidade e historicidade que o cerca e codifica as relações sociais.
Na atitude transgressora de uma vida radicalmente precária e de altruísmo incondicional, Francisco de Assis, por agir de forma independente, reúne contra si motivos para ser perseguido pela instituição mais poderosa de sua época, a Igreja Católica Apostólica Romana. Contudo, a comoção pública pela trajetória de um homem rico que se despoja completamente dos bens materiais para viver a cada dia cuidando dos necessitados, lhe garante importante papel nas mudanças de paradigma de seu tempo. Uma experiência artística que contemple esses princípios propõe uma fricção com os valores vigentes da contemporaneidade. Portanto, pensar na poetização da radicalidade desse sujeito histórico é realizar uma proposição estética que considere verticalmente cada elemento envolvido, sua fonte e sua reverberação como fenômenos que, de tão naturais, se apresentam miraculosos.
*“Ternura” e “Vigor” são as palavras que Leornado Boff utiliza para manifestar o fenômeno do homem histórico-simbólico de Francisco de Assis. Terno na relação de cumplicidade com tudo o que, para ele, manifestava o sentido de Unidade ou Irmandade entre o seres humanos e a natureza e vigoroso na radicalidade e propósito firme de seguir os princípios de simplicidade, humildade e despojamento das “necessidades ilusórias”.
Por Thiago França com colaboração de Artur Mattar